Bebês guardados em ampolas: será este o futuro?

Nova técnica para preservar óvulos e espermatozoides em animais avança na reprodução humana

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Liofilização é um método que tem o objetivo de preservar a vitalidade das células pela retirada da água por sublimação do gelo. É um processo de secagem de uma substância congelada no qual a maior parte de água é removida, sem passar pelo estado líquido. Em simples palavras, essa técnica desidrata o tecido a tal ponto que ele se torna pó. O material liofilizado tem aparência porosa e pode ser reconstituído imediatamente à forma original pela adição de água mantendo os constituintes originais. O tempo de vida útil é elevado se comparado a um produto não liofilizado. Como a quantidade de água do material é reduzida, diminui-se a possibilidade de ocorrerem reações de oxidação ou ação enzimática.

O primeiro produto a ser liofilizado foi o vírus da raiva, em 1911. Durante a Segunda Guerra Mundial, a liofilização atingiu o processo industrial devido à elevada necessidade de plasma sanguíneo. Além disso, a tecnologia também avançou com o desenvolvimento dos projetos espaciais, quando se liofilizou alimentos para astronautas da NASA.

Muitos produtos atualmente são liofilizados, antibióticos, anticoagulantes, enzimas, hormônios e até frações de sangue. Na indústria farmacêutica, a utilização mais direta está relacionada à produção de injetáveis. Em biotecnologia, o uso de microrganismos e proteínas recombinantes tornou a liofilização um processo comum. Costuma-se também liofilizar bactérias e vírus para a manutenção de sua viabilidade e uso após longos períodos de armazenamento.

Recentemente, a liofilização tem sido aplicada para preservar espermatozoides de mamíferos, representando uma ferramenta alternativa para a conservação de material genético. Já foram alcançados nascimentos de ratos e coelhos provenientes do sêmen liofilizado. Em macacos, já foram obtidos embriões, porém, eles sobreviveram apenas um dia. Em humanos está sendo testada e aprimorada com óvulos e espermatozoides.

Neste ano, em um congresso internacional realizado no Brasil e em outros que participei, como o da Sociedade Americana de Reprodução Humana (ASRM), realizado em San Diego nos Estados Unidos, este assunto foi apresentado e discutido com os participantes, demonstrando que esta técnica poderá, em breve, ser utilizada em humanos. A liofilização de óvulos e espermatozoides em animais, substituindo o congelamento, já é uma realidade.

Atualmente, os métodos convencionais de criopreservação dos espermatozoides e óvulos (congelamento lento ou vitrificação) dependem da conservação em nitrogênio líquido a uma temperatura de – 196ºC, obrigando maior atenção no armazenamento além de tornar mais caro o processo propriamente dito. Assim, novas alternativas que preservem o genoma humano podem ser mais simples e, talvez, mais econômicas, facilitando o armazenamento à temperatura ambiente ou, como os medicamentos, em ampolas, dentro ou fora da geladeira.

Acredito que, com o avanço da ciência a passos largos, em um futuro não tão longínquo, os casais poderão, como os medicamentos injetáveis, guardar seus bebês, ainda em estado de embrião, numa simples geladeira caseira. Entretanto, enquanto este futuro não chega, novos estudos devem ser realizados para a melhoria da técnica de liofilização para que possam ser realizados em humanos. De qualquer modo é mais uma técnica promissora.

Bibliografia:

1: Kaneko T, Serikawa T. Successfullong-termpreservationofratspermbyfreeze-drying. PLoS One. 2012;7(4):e35043. Epub 2012 Apr 9. PubMed PMID:22496889; PubMed Central PMCID: PMC3322169.

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3: Gianaroli L, Magli MC, Stanghellini I, Crippa A, Crivello AM, PescatoriES,Ferraretti AP. DNA integrity is maintained after freeze-drying of human spermatozoa. FertilSteril. 2012 May;97(5):1067-1073.e1. Epub 2012 Mar 3. PubMed PMID: 22386843.

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