Onde parir em Santos? Por que esse retrocesso?

Um relato sobre o que tem acontecido na cidade de Santos-SP em relação ao parto e que também tem ocorrido em muitas cidades brasileiras

publicidade

Sou caiçara, santista de nascimento e de coração. Casada, e mãe de três filhos. Dois já adultos e tenho uma raspa de tacho de apenas 8 meses, Dora. Meu marido, pai de Dorinha é estrangeiro, mas juntos decidimos que nossa bebê seria uma brasileirinha, e claro, santista. Fiquei muito feliz e orgulhosa de nossa decisão, assim, como centenas de mães e pais, que amam essa Cidade e querem que seus bebês nasçam aqui mesmo.

Mas atualmente, a situação das maternidades em Santos não está deixando que essa escolha seja feita pelo casal. A situação está gravíssima na Cidade, que amo e escolhi pra viver! Muitas gestantes estão estressadas, desesperadas, sem saber o que fazer…

Dorinha no ombro do papai - Foto: Adriana Vieira / arquivo pessoal

No final de 2013 a maternidade do Hospital Beneficência Portuguesa fechou, e um caos já começou a se instalar. Era uma maternidade agradável, com leitos conjuntos pra mães e bebês, com os quartos no mesmo andar que a maternidade e o centro cirúrgico. Tudo funcionava bem, mas a diretora alegou prejuízo e déficit mensal sempre no vermelho. Enfim: FECHARAM.

Agora, outra maternidade, a da Casa de Saúde diz que até dia 30 de abril irá fechar também. Vão fechar ainda o PS obstétrico, ou seja, atendimentos de urgências (cerca de mil/mês) não serão mais feitos lá. Alegação: IDEM – DÉFICIT, VERMELHO.

Bem, eles dizem que irão fechar o PS Obstétrico, mas caso a mulher, ou o casal, queira trazer “ sua equipe” ao hospital, o parto pode ser feito. Mas tem mais um detalhe: deve ser PARTO AGENDADO.

BOM, VAMOS LÁ ENTENDER ALGUNS PONTOS:

PARTO AGENDADO? Me desculpem as adoradoras ferrenhas de cirurgias, mas cesariana não é parto. Cesariana é uma cirurgia e tem risco de morte sim. Para ambos, nesse caso (mãe e bebê). Não, não sou contra cesárias necessárias, mas sim, sou contra as cesárias eletivas, em que bebês são retirados, extraídos na hora em que o médico ou os pais decidem que ele deve nascer, sem ao menos esse bebê estar pronto. Isso deveria ser proibido, como é em muitos países desenvolvidos. Mas aqui, pode! Pode fechar e abrir maternidades, pode deixar as gestantes sem escolhas, sem local pra parir, e sim, apenas local pra se fazer extração de bebê.

Outro ponto: se maternidade desse prejuízo, não teríamos tão belas maternidades em São Paulo, e que fica há 60 quilômetros daqui de Santos. E é pra lá que muita gente agora tem ido pra terem seus bebês. Se for má administração, porque não mudar isso, ao invés de fechar???

Mais uma questão: por que uma Cidade como Santos ainda não tem se adaptado ao parto humanizado? Por que não temos casa de partos? Por que não temos doulas fazendo parte das equipes hospitalares? Por que cidades menores como Itapetininga, Tupã e muitas outras já possuem uma casa de parto e hospitais com equipe multidisciplinar aptas a receberem gestantes de baixo risco para um parto normal e ou natural, e aqui em Santos ainda nada disso acontece? Aqui proíbem até a gestante de entrar com sua bola pra fazer exercícios, e o casal tem que escolher se o marido entra no parto ou a doula? O que é isso? Marido é parte do parto, parte do nascimento e não “acompanhante”. AH! Foto também não pode? Por que se o evento é desse casal e não do hospital. Absurdos cada vez mais e maiores… arbitrariedade, falta de democracia, e total autoritarismo!

Santistas se reúnem em movimento pela humanização do parto - Foto: Adriana Vieira / arquivo pessoal

Aqui na região já tivemos casa de parto, em São Vicente, e foi fechado. Por que? Mais uma grande questão!

No dia 5 de abril, mais de 100 pessoas se reuniram na Praça Independência para chamar a atenção de autoridades e diretores de maternidades, bem como de profissionais da saúde da mulher, e mostrar que nos importamos com nascimentos melhores, para essa família, para o bebê. Caminharam rumo a frente da maternidade em questão: Casa de Saúde.

Pais, mães, avós, gestantes, maridos e familiares, juntos, caminharam em prol da humanização na Cidade, que abriga o maior porto da América Latina, que tem Pelé, Robinho e Neymar como reis, que tem quase um milhão de moradores, e que foi tida como uma das 10 melhores cidades pra se viver. Que abriga o maior jardim a beira mar do mundo, e que tem peculiaridades que só nós santistas conhecemos, como por exemplo, é uma ilha, tem uma estátua de leão que toda criança santista tem foto, tem a Fonte do Sapo pra patinar e andar de bicicleta, e onde gostaria que minha terceira filha crescesse!!!

Carregando seus bebês, na barriga ou já nos carrinhos e slings/wraps, todos estavam unidos numa só voz e carregando vários cartazes e dizeres, como: liberdade de escolha, liberdade pra ter seu bebê da melhor maneira pra cada uma, com amor, com humanização…

Paremos de fechar os olhos para a lamentável situação atual das maternidades de Santos, e sigamos confiantes e dando boas notícias e esperanças para as mães que querem parir seus filhos por aqui.

Gestante com mensagem escrita em sua barriga

O sistema foi criado por nós, para nós, e devem nos servir. Médicos, enfermeiros, administradores, devem servir ao local que trabalham e não fazer com o que sistema nos engesse tanto, que não podemos mais nos expressar como seres humanos que somos: MAMÍFEROS, E QUE SABEM PARIR.

Imprensa local faz cobertura do ato pela humanização do parto em Santos-SP - Foto: Adriana Vieira / arquivo pessoal

Temos uma próxima ação para acontecer na Cidade, e vai ser dia 15 de abril, 14h30, audiência pública na Câmara Municipal de Santos, sobre os recentes fechamentos de maternidade e sua consequências. Auditório " Vereadora Zeny de Sá Goularte", praça Tenente Mauro Batista Miranda, 1 - térrero, Castelinho (antiga sede do Corpo de Bombeiros)

Santistas reunidos na praça da INdependência em ato pela humanização do parto - Foto: Adriana Vieira / arquivo pessoal

Contamos com vocês por lá!

Adriana Vieira é doula, educadora perinatal, instrutora de ioga e jornalista, mãe de 3 filhos, dois nascidos de cesárias e uma nascida num parto normal humanizado (vba2c). Vai continuar sua luta pacífica em prol de melhores nascimentos e de um sistema de saúde mais amoroso e respeitador.

publicidade
publicidade
publicidade